um mais um rápido será.
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Thursday, September 04, 2008
já que você estava sempre lá.
É claro que já tinham mudado, mas a distância do tempo entre um ponto e outro não é facilmente calculável. Mais de dez anos? Talvez. Porém não muito mais que isso, pensava enquanto entrava no metrô. Guiga agora era "estagiário de escritor", como gostava de chamar. Na verdade, marcava encontros, entrevistas, viagens e lia em primeira mão alguns trabalhos de um grande escritor de hoje em dia. Não lhe entediava o trabalho. Na verdade, na altura dos seus trinta e cinco anos, achava bom este ofício. Ficava por ficar perto de pessoas interessantes. Na altura da estação de Botafogo levantou-se para sair. Olhou em volta e percebeu o mesmo metrô de sempre. Há uns quinze anos descia na mesma estação, seja na volta de algum digestivo cultural no centro da cidade, seja voltando do maracanã. Lembrou do Flamengo, clube de coração e que sempre lhe arrancava um nó na garganta. Tropeçou ali, naquele vão entre o metrô e o cimento da estação. Olhou pra frente, sorriu para uma jovem moça e sentiu vergonha. Correu, subiu a escada rolante de dois em dois, cortando espaço entre o tempo. Estava atrasado para o encontro; perto dali, no café do seu cinema preferido. Chegou à superfície enquanto um ônibus rasgava a Voluntários da Pátria, buzinando como se fosse pra ontem. Fechou os olhos, não gostava de barulho. Foi correndo, quase pulando de dois em dois e chegou na porta do cinema. Entrou e agradeceu a Deus pelo ar condicionado. Lá, sentada numa mesa um pouco ao fundo, estava Lúcia. Amiga que viveu no exterior durante um tempo. Era difícil saber quanto, pois quando foi já tinha sumido de sua vida. Ela havia namorado um grande amigo seu, Lucas. Lucas também sumiu. Mas foi porque quis. Olhou pra ela, sorriu, tímidos pelo encontro, saudosos dos abraços. Sentou e pediu um café. - Também quer? - Já tomei dois. Como sempre atrasado, Guiga... - O metrô. Ele deu aquela parada, sabe? Então... Ela não sabia. E se algum dia soube, já tinha esquecido. Morava agora em Belo Horizonte e nunca usava o metrô por lá. O Rio tinha ficado para trás e hoje se resumia a ser um cartão postal para as suas lembranças. - E aí, o que conta de novo? Fiquei sabendo que você continua sendo assessor daquele escritor... qual o nome mesmo? - Sim, sim. Continuo. Mas tem mais um agora também. - É? Você gosta? - Parece estágio. Ela riu. Ele procurou desviar os olhos de seu rosto. Procurou algo em volta pra prestar atenção. Viu a garçonete chegar com o café. Já a conhecia. Gostava muito dela; a achava bonita, muito bonita. Ela sorriu enquanto lhe servia o expresso duplo mais caro da cidade. Lindo sorriso, pensou. Percebeu que era preciso dizer algo. Mas entre colocar açúcar em seu café e entrar na conversa era mais fácil pegar o sache da União. - E além disso, Guiga? O que você anda fazendo? Um tempo enorme que a gente não se vê e você fica aí... - Continuo na mesma, Lú. Vejo televisão, alugo filmes, venho a esse mesmo cinema, escuto as músicas que eu gosto de escutar e de vez em quando tomo cerveja. - Jazz? - O quê? - Você continua gostando de jazz? - Sim, claro. Por que iria parar de gostar de jazz? - Não sei. Eu não escuto mais. - Você não escuta mais Coltrane? - Sim, claro que escuto. Mas ele não é jazz. É qualquer outra coisa além disso. Ela sorriu de novo. Ele procurou de novo outro ponto pra olhar e fugir do seu rosto. Cadê a garçonete? Não a via. Ficou assustado porque não tinha para onde olhar. - Vamos ali fora. Quero fumar um cigarro. - Tem que pagar a conta, Guiga. - Deixa aí, depois eu volto e pago. Conheço as pessoas. Levantou e viu a garçonete sair do banheiro. Disse calado em um sorriso que já voltava pra pagar. A garçonete entendeu. Sorriu. Belo sorriso. Lúcia foi ao seu lado. Caminharam em silêncio... De um ponto ao outro, tempo difícil de se calcular. Não demoraram mais de dois minutos, uns cinqüenta passos, talvez. Foi o tempo dele lembrar do Coltrane de novo. Como eles gostavam daquele disco, que escutavam em vinil. "Blue Train", de 57. Tirou o maço de cigarro. Procurou o isqueiro no bolso da calça, não achava. - Toma aqui, acende no meu. - Pensei que tinha parado. - Parei, voltei, parei. Comprei um maço quando cheguei aqui no Rio. Sei lá, sabe como é... Ele acendeu o cigarro dela primeiro. Estranhou. Fumava Free, agora. - Free? - É mais fraco, Guiga. - Engraçado você continuar fumando, Lu. - Por quê? - Sei lá. A gente sempre fumou junto e lembro que apostávamos quem iria parar primeiro. Sempre achei que iria ser você. - Eu parei... - Mas voltou. - É. Mas agora fumo Free. Riram juntos pela primeira vez em alguns anos... De um ponto ao outro. Tempo difícil de calcular. Ele se espantou com a sinceridade de seu sorriso. Foi como se a muralha da China desmoronasse de uma vez. Sentiu-se inseguro. Com medo. Quis abraçá-la, beijar a sua testa da maneira que gostava de fazer. Sentir o seu cheiro. Cheiro único. - É impressionante você não escutar mais jazz. Sempre fomos parecidos, Lu. - Sim. Sempre fomos. Praticamente iguais. - Praticamente? - Sim. Só que eu sou mulher e você é homem. Ela disse aquilo olhando para o seu rosto. Pela primeira vez ele não sentiu vontade de procurar outra coisa pra olhar. Nem a bela garçonete. Nem outro ônibus que cortava a Voluntários... nada. Só pensava no que tinha escutado naquele instante, e daquele olhar... De um ponto ao outro. Tempo. Só pensava que ela ser mulher e ele ser homem... - Faz toda a diferença, Guiga. Ela interrompeu o que ele iria pensar. Um tempo cortou todos os tempos que já existiram entre os dois. Foi como se estivessem olhando de novo, sem nenhum traço anterior de reconhecimento. Não dava pra calcular. Impossível. Abaixou a cabeça e jogou o cigarro no chão. Esmagou com o all-star e quando subiu os olhos a beijou na testa. Cheiro bom. Beijo gostoso. Viu entre os cabelos dela que estava na hora da sessão. Mostrou pra ela e disse um "vamos?" meio na dúvida. Ela disse que claro, claro. Era uma retrospectiva do Alain Resnais, um dos diretores que gostava muito. Já devia estar no trailer do mais novo filme do diretor... "Medos privados em lugares públicos."
Posted at 08:23 pm by GustavoFonseca
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Sunday, August 31, 2008
duas constatações e uma sacação: - é impossível Niterói ter dois dias nublados seguidos. - é impossível torcer para o Flamengo sem sofrer, ficar com raiva e ter orgulho, ao menos, do querido rubro negro. sacação: - meu círculo está cada vez mais virtual. uou.
Posted at 11:54 pm by GustavoFonseca
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Sunday, August 24, 2008
feliz ano novo eu dizia enquanto os fogos estouravam no céu do outro lado da baía porque os daqui ainda demoravam, preguiçosos a subir e explodir. bum, cabum! tropecei mas não caí no jargão comum quando segurei na garganta que aquele seria o nosso ano, nada tiraria da gente a felicidade eterna do mais feliz casal do mundo. fingi que não ligava muito pra esse tipo de festa, dei um sorriso de lado e achei tudo muito bonito só quando ressaltei a beleza dos fogos refletida na água do mar. ela não se intimidou, deu um beijo muito grande em mim e com o seu sorriso disse o que não diria o maior bêbado corajoso das milhares de cidras entornadas entre as rosas para iemanjá. abracei a sua cintura, senti o seu cheiro misturado com sal do suor e lembrei que ali estava o mar, se ela não iria pular as infinitas ondinhas para a realização de suas promessas. não, hoje não. disse rindo. deixa isso para o ano que vem, disse. falei que já ia ela fazendo novas promessas no primeiro minuto do ano novo. olhou pra mim, deu um abraço, me beijou o peito na altura que ela alcançava e me abraçou. moço, começou. moço, moço... vamos continuar procurando a casa da Magali, deve ser por ali. fiquei meio que triste, meio que feliz, mais ou menos preocupado por ela não dizer que me amava ou coisa do tipo que se diz lá depois do primeiro beijo do novo ano novo. fingi que se assim se era assim seria e a puxei pelo braço, saindo da areia e procurando o asfalto perdido entre as rosas e o rio de champagne barato. lá pela segunda esquina passou uma neo hippie de all star com um incenso, pregando que júpiter estava ali para nós e queimou o vestido do meu amor.um pequeno buraco, no vestido mais novo do último dia do ano. um buraco. ainda que fosse "inho". ela ficou parada, não conseguia mais se mexer e foi quando eu disse que essas coisas acontecem e que a gente daria um jeito, do vestido poderia se fazer uma camisa pois com imaginação tudo há de ser feito. a abracei e sem resistir saiu daqui de dentro que eu estaria com ela sempre, sempre. e que a amava. muito, muito. eu também te amo, muito. a beijei na testa, da maneira que sempre fazia. saímos à procura da casa da Magali, cortando caminho entre as pessoas, os carros, os bêbados e aqueles que tentam se equilibrar na felicidade momentânea dos vinte minutos de fogos de copacabana.
Posted at 06:08 pm by GustavoFonseca
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Monday, July 28, 2008
Janer Cristaldo: Senhor Bioy Casares, eu tive a honra de traduzir o Crônicas de Bustos Domecq [escrito em parceria com Roda Viva), expressos em labirintos lógicos e jogos de espelhos. Ao mesmo tempo, Borges também abordou a cultura dos pampas argentinos, em contos como "O morto", "Homem da esquina rosada" e "O sul". Rende homenagem à literatura pregressa de seu país em contos em que se apropria do mitológico Martín Fierro: "Biografia de Tadeo Isidoro Cruz (1829-1874)" e "O fim". Entre seus contos mais conhecidos e comentados podemos citar "A biblioteca de Babel", "O jardim de veredas que se bifurcam", "Pierre Menard, autor do Quixote" (para muitos a pedra angular de sua literatura) e "Funes, o memorioso", todos do livro Ficções (1944) - além de "O Zahir", "A escrita do Deus" e "O Aleph" (que dá nome ao livro, publicado em 1949). A partir da década de 50, afetado pela progresiva cegueira, Borges passou a se dedicar à poesia, produzindo obras notáveis como A cifra (1981), Atlas (um esboço de geografia fantástica, 1984) e Os conjurados (1985), sua última obra.', ABOVE, RIGHT, WIDTH, '280');" onmouseout="return nd();" style="cursor: default; text-decoration: none; z-index: 2; text-align: left;">Borges, em 1967]. Inclusive, tive que viajar para a Argentina para descobrir o significado de uma palavra: blicanceperos.
Bioy Casares: É o
nome que se dava a um móvel que servia de sofá de dia e de cama à
noite. Quando você disse, por um momento, não me lembrava, não sabia do
que se tratava, se era um animal ou o quê.
Janer Cristaldo: Certo. Tinha o nome dos vários fabricantes das primeiras sílabas:
bli-can-ce-pe-ros. Eu viajei à Argentina por uma palavra.
Bioy Casares: Me parece que fez muito bem.
***
não é nenhum exagero dizer que “a
invenção de morel” é um dos melhores livros que já vi e li por aí. não é também
nenhum exagero dizer que o espanhol é uma das línguas mais bonitas que há por aqui.
“luna llena” e “mientras” dizem muito mais que “lua cheia” e “enquanto”. acontece
que, junto com morel e sua invenção, apareceu por aqui um livro de entrevista
do Cortázar. e com ele, contos. e com os contos o “Aleph”, de Borges.
Bioy, Cortázar, Borges, Piglia,
Godiño. argentinos que brincam com as letras e com a imaginação. fui à Buenos Aires e voltei umas cinco vezes essa semana. e tudo por essas palavras.
Posted at 10:17 pm by GustavoFonseca
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Saturday, May 31, 2008
"Santiago" de João Moreira Salles
(Por Gustavo M. Fonseca)
“Santiago” é antes de tudo um lindo filme. Filmado ao longo de 1992/93,
João Moreira Salles, utiliza-se de dois personagens para caracterizar o Rio de
Janeiro do final do século XX. A casa dos seus pais (a famosa “casa da Gávea” e
atualmente sede do Instituto Moreira Salles) e o mordomo chamado Santiago que
por ali trabalhou ao longo dos prósperos anos do Rio, onde a cidade (e a casa)
parecia não ter fim em sua áurea cosmopolita e cultural. Filho de uma família
tradicional a sua casa era freqüentada por figuras célebres da época, com
grandes encontros e jantares. A casa era viva. É o que tenta demonstrar João no
seu retrato do passado.
É sobre o passado e o presente que se trata “Santiago”. Agora a antiga
casa cosmopolita, o Rio de Janeiro e, principalmente, Santiago, parecem não
fazer sentido existirem. Parecem estar fora do tempo. A grande casa vazia e
abandonada e o pequeno apartamento cheio de estórias escritas, contadas (e
porque não vividas?) do antigo mordomo Santiago são o enredo deste documentário
que demorou anos a ficar pronto.
Inicialmente João Moreira Salles quis fazer um filme sobre o grande
personagem que foi ao longo de sua infância o mordomo Santiago. Sem sombra de
dúvida interessante, com histórias de suas centenas de linhagens aristocráticas
detalhadamente escrita e reescrita em milhares de pilhas de papéis, em
diferente línguas, Santiago é um argentino que nunca perdeu o sotaque mas
parece não ser mais de lugar algum. É um personagem fora do tempo e talvez do
lugar também. Quem sabe é por isso que precisa reescrever a sua história em
papéis e estórias fantásticas, sendo estas contadas ao longo do filme para João
e sua equipe no seu apertado apartamento, onde a cozinha, por exemplo, forma um
cenário perfeito, lindo.
E aqui volto por onde comecei. O filme é muito bonito e talvez isso fosse
o seu principal problema se tivesse sido finalizado logo após o término de suas
filmagens. Não foi e só temos a agradecer por isso, pois ao longo dos anos João
Moreira Salles pode repensar sobre o que tinha filmado Inteiramente centrado na
idéia do mordomo no primeiro momento ele não conseguiu perceber como conduzia
as entrevistas, sempre preocupado com os aspectos técnicos da gravação e repetindo
takes duas, três vezes (algo
impensável em seus documentários recentes). Como ele próprio assume na narração
em primeira pessoa no filme (tarefa muito bem realizada na voz de seu irmão,
Fernando Moreira Salles), Santiago nunca deixou de ser para ele, ao longo das
filmagens, o seu mordomo. Essa situação perdurou durante todo o processo e
visto de hoje, o diretor não conseguia compreender o que seu antigo mordomo
tinha a lhe dizer. Só escutava o que estava interessado em ouvir, e por isso
perguntava. Durante o filme, dentre os belos momentos protagonizados por
Santiago, há um em que ele se diz pertencente àquela “condição de ser maldito”
e se precisaria contar sobre isso no filme. O diretor, secamente, diz que não.
Parece que João Moreira Salles não estava disposto a escutar tudo no início da
década de noventa. E é muito bom quando ele assume isso na montagem desse filme
inacabado.
Ali pelo meio da exibição há uma cena que destoa do resto do filme. É colocada
uma filmagem realizada aparentemente em super-8
onde se vê a família de João brincando na piscina, como num domingo qualquer.
No silêncio, somente com as imagens (nesse momento coloridas), há algo ali que
pertence somente ao diretor e Santiago. Acho que nunca vamos compreender o que
se quer com essas imagens, e talvez o que o diretor esteja procurando seja
justamente uma resposta a isso também. Afinal, o que fazer com a casa que
pulsava, a família que brincava e o mordomo fantástico? É nessa aparente tensão
que o filme se desenvolve de uma maneira muito calma, graças a sua montagem,
música e narração em off.
Talvez um pouco cansativo no início graças à longa explicação das filmagens
iniciada em 92 e da interrupção da montagem do documentário (só finalizada em 2005),
“Santiago” é uma obra prima dos documentários brasileiros. Nunca tinha
assistido um diretor se entregar com tanta sinceridade sobre um trabalho já
realizado e não concluído. Ao longo das tomadas originais, parece que o diretor
somente estava preocupado com a história do mordomo e da casa e de suas
histórias pela “casa da Gávea” e não pelos seus escritos e o que tinha e podia dizer.
Guardado, incompleto em sua enorme completude, “Santiago” é um filme sobre a
passagem do tempo e como é necessária a construção de ficções, “linhagens
aristocráticas”, romances (e por que não documentários?) para procurarmos
preencher a “casa da Gávea” que há por aí em nós.
Se, como diz Santiago, Beethoven é para ser tocado de fraque, “Santiago”,
o filme, não precisa de roupa de gala. É somente necessário ver e escutar com
calma, que ele vai se construindo... Pois, assim como o ex-mordomo, é forte e
muito sensível. Um belo e sincero filme.
Posted at 12:42 am by GustavoFonseca
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Saturday, May 24, 2008
Lady Madonna - Escrita por Paul McCartney, tocada pelos Beatles, Caetano Veloso e quem mais tiver um violão.
Lady Madonna, children at your feet
Wonder how you manage to make ends meet
Who finds the money? When you pay the rent?
Did you think that money was Heaven sent?
Friday night arrives without a suitcase
Sunday morning creep in like a nun
Monday's child has learned to tie his bootlace
See how they run
Lady Madonna, baby at your breast
Wonder how you manage to feed the rest
See how they run
Lady Madonna, lying on the bed
Listen to the music playing in your head
Tuesday afternoon is never ending
Wednesday morning papers didn't come
Thursday night you stockings needed mending
See how they run
Lady Madonna, children at your feet
Wonder how you manage to make ends meet
Posted at 02:42 am by GustavoFonseca
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Monday, May 19, 2008
Joaquim escreveu sobre a Lapa. E eu, como bom devoto e puxa-saco, resolvi escrever sobre a Lapa também. Mas não tenho nada a dizer da Lapa. Gosto de lá e desgosto profundamente. Lapa não é lugar pra nada e é lugar de tudo e todos. Mas nunca aconteceu nada por lá que me tocasse, sempre achei uma balbúrdia ensurdecedora. Gosto da sinuca da Lapa. Isso eu gosto. Jogar sinuca lá é uma delícia. Mas isso é assunto pra depois, depois. Mas a Lapa tem uma grande característica que é invejável. Dê apenas uns trinta lances de escada, suba uma pequena ladeira (cuidado com o assalto) e você chegam em Santa Teresa. Pode ir de bondinho também, isso se você quiser ficar esperando, esperando e achar muito legal pagar cinqüenta centavos de passagem. A primeira vez que eu a vi me apaixonei. Católico que nada de repente eu amei a Santa, profundamente, de verdade. Era um sábado e eu era um turista dos bondes. Sim, fiquei na fila e achei muito legal pagar só cinqüenta centavos. Fiquei andando por lá, subindo a artéria principal dos turistas, ali do Curvelo até o Largo dos Guimarães. Descobrir Santa Teresa foi igual se apaixonar por uma linda mulher. É cheia de curvas, subidas, lugares desconhecidos e perigo, algum perigo. Tímido e menino cheio de receio que sou, na primeira vez fiquei somente por ali, na rua principal, olhando e vendo aquilo tudo que passava, não percebendo quase nada. Extasiado, bêbado da altura das ladeiras de Santa. No Largo dos Guimarães parei, olhei, respirei, sorri e peguei o primeiro bonde pra descer pro centro, esse já velho amigo conhecido e bacana. Fiquei com a Santa na cabeça. Tudo era Santa, que santa! A vista, a visita em alguns museus, arte de cidade antiga pra turista ver e uma livraria que toca samba! E eu que nem gosto muito de samba, sambei em Santa! Mas a mulher, ah Santa Teresa! Esta ainda continuava lá, a minha espera e eu com medo, medroso, ficava aqui embaixo, olhando de lado para aquela delícia lá em cima. Um dia, com um casal de amigos namorados, resolvemos subir as suas ladeiras e curvas para tomar cerveja. Diferente cortar as curvas das ladeiras de carro, vai rápido e nem pedimos licença. Falei, "desculpa" baixinho e Santa sorriu quieta e malandra como sempre. Fiquei com medo. Sentamos num belo bar da moda eterna de Santa, pedimos cerveja das boas e um pastel dos caros e bons, deliciosos. Conversamos, conversamos e Santa ali, no escuro, à minha espera. Fui à rua, olhei, voltei. Os meus amigos se beijando, me deixei respirar a santa Teresa. Voltei, sentei, disse uma ou duas coisas e resolvi sair para encarar e conhecer mais curvas de Santa. Conhecer uma mulher da noite de noite é sempre perigoso, não sabemos o que pode dar e seja o que for, pra bom ou ruim, é preciso ter "culhão" pra agüentar. De qualquer maneira, relaxa, nada que umas meia dúzia de garrafa de cerveja não dê coragem. Saí que nem maluco, andando à procura do nada e das curvas de Santa, que de santa só o nome e olhe lá, passe a régua. Dobrei a primeira esquerda, respirei, olhei um prédio, subi uma ladeira, olhei uma casa, dobrei a direita, mais casas, um vigia, "santa teresa, ah santa teresa!, de noite como tu és linda e perigosa", saí cantando assim num ritmo meu, só meu porque não tenho ritmo nenhum. Desci umas ladeiras, dei de cara com um outro bar, peguei uma cerveja, conversei com o dono e ele e falou que também era louco por santa, que ali nasceu e ali ia ficar e eu sem perguntar nada, sem nem tocar no assunto. Vi no espelho do bar que a minha cara era de bobo apaixonado. Fiquei abismado, bebi de gole a minha cerveja e aceitei a dose de cachaça que me ofereceu. Uma delícia santa, a cachaça. Disse um "adeus" meio "até logo" e voltei pro bar dos meus amigos. Deu uma fome e comi em Santa pela primeira vez. Perguntaram por onde andei, "assim sozinho, naquela hora, perigoso, foi assaltado"? Respondi que não, fui ali, tava ali, bebi uma cerveja, uma cachaça, porque tava com uma mulher. Eles perguntaram "quem? cadê?" dei um sorriso maroto e num "ah tá por aí" eles fizeram que entenderam e mudaram de assunto e eu fiquei rindo. Bêbado e feliz, mais feliz que bêbado, acho que bêbado por estar feliz. Voltei a Santa Teresa mais algumas vezes. Fica longe de onde eu moro e a visito com parcimônia. Assim como todos os amores o nosso também mudou para continuar existindo. Hoje em dia sinto saudade mas fico feliz em pensar que essa mulher, pelo menos essa, nunca vai sair dali. Um beijo pra Santa.
Posted at 01:24 pm by GustavoFonseca
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Wednesday, April 23, 2008
É no embalo dos discos de jazz que se faz a vida correr. Por aqui, sinto assim. Sim! Olha, tá escutando? O tema da canção quem manda é o pianista. Tá marcando, tá marcando, criando... Agora chega o trompete! Estardalhaço! Maravilha, maravilha! O sax chega... e a música muda! Agora é ele quem dita, dizendo: "eu sei o que vim fazer por aqui!". A bateria então se intromete e com sua força habitual dá uma virada, olha pro sax e para o trompete e pára, dizendo "agora vai!". E começa, recomeça, nunca pára. É uma maravilha. O jazz é maravilhoso e eu não tenho a menor idéia de onde e para onde ele me leva.
Posted at 07:47 pm by GustavoFonseca
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Friday, April 18, 2008
Para Sr. Joaquim F. dos Santos
Um dia ainda compro uma caneta e escrevo para o Sr. Joaquim Ferreira dos Santos dizendo, sem mais ou menos, que gostaria de escrever tal qual ele, assim de uma maneira tal qual é. Sacou? Pois é. Não teria parágrafo, um tiro pra ver se erra e acerta outra mira que não mirei e já acertei, acertando. Queria perguntar como se faz, como se é, como jaz o escritor por aqui, nessas terras quentes e douradas de tanto sol no asfalto dividindo o mar, areia e o que estiver por lá. Nessa terra que não existe e permanece uma dúvida na cabeça e na andança de um rapaz do interior mais ou menos. Perguntar como na escrita se escreve a resposta de um amor. E até como se ama, por aqui. É igual ali? Quando comprar a caneta escreverei assim num papel sem linha pra ficar tudo reto, a minha letra e as idéias cabeçadas por pensamento torto. Vai ser uma beleza, garanto no papo reto. Um quê de tristeza, vai ser uma beleza. Como dizia o Jorge Bem. Vou falar que é estranho e esquisito por aqui, esses tais de "leks" dizendo, falando, esperneando em língua estrangeira de tão difícil familiar. Perguntarei se no tal livro de 1958 é assim também, e que não, ainda não li o livro. Não quis matar a curiosidade e perder a vantagem do não saber. Sabendo é mais complicado, cai a idéia das idéias. Afirmarei que o Borogodó não se perdeu, tá por aí, brincando de se esconder nas colunas de segunda-feira todas santas por suas crônicas. Direi por fim que muito obrigado por uma dezena de palavras naquela página de jornal. Direi também que na verdade não serve pra muito, nem tampouco para pouco. É, apenas uma boa, Sr. Joaquim. Por fim, um parágrafo para o abraço. Abraço.
Posted at 10:35 pm by GustavoFonseca
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Saturday, March 29, 2008
Era no centro do Rio. Isso eu tinha certeza. Certeza, aliás, desde o início. Só que foi estranho, esquisito e confuso. Surreal. Surrealismo. Era um prédio e tinha gente morando por lá. Como quem mora no Rio sabe é muito complicado de se encontrar alguém que more no centro. Em toda minha vida conheci um só. Mas tinha muita gente morando lá e eu entrei no prédio, porque lá também iria morar e viver. Tinha uma escada bonita, grande. Levava a qualquer lugar. Tinha também um elevador, desses antigos que se vê em filmes franceses. Entrei no elevador. Sempre gostei desses filmes franceses. Era um corredor largo, branco, com alguns quadros pela parede. Não dava para ver o final dele. Pelo menos não consegui ver... Sem mais ou menos entrei numa porta, o meu apartamento. Era um apartamento que não era apartamento. Tinha livros para todos os lados. Lembro de ter visto claramente a coleção "Os Pensadores", todo azul, ali no canto direito. Era estranho, tinha livro pela parede toda. Pelo meio do chão também. Na outra parede era uma parede de livro. Percorri aquilo, deixando a minha mão se tocar naqueles livros, como se tivesse sentindo uma vegetação. O cheiro era bom. Cheiro de livro bem guardado, gostoso de lembrar... Saiu um senhor e perguntou se eu queria alguma coisa. Falei que não sabia, podia ser... Ele disse que ali era um lugar de livro. Livraria? Não... Sebo? Não, também... Deixei então de perguntar e fiquei olhando pra ele, meio espantado, meio alegre, feliz. Ele deu uma risada muito grande e falou que eu iria entender aquilo tudo. Ri também. Um riso meio torto, meio exagerado. Riso gostoso de rir. Acordei com um riso no meu rosto. Estranho acordar sorrindo, parece que você nem dormiu. Não lembrei do sonho. Nem tinha sentindo que tinha deitado mais de dez horas. Levantei, escovei os dentes, vesti a jaqueta costumeira e entrei no ônibus das nove e dez. No vai e vem dos amortecedores vi uma sala fechada. Antigo bar queimado por um fogo sem explicação. Aqui daria uma livraria, pensei. Lembrei do velho e do riso e da não explicação daqueles livros que estavam por lá. Fechei os olhos e entrei novamente no ritmo dos amortecedores. Não tenho dinheiro, deixa para outro dia...
Posted at 01:43 am by GustavoFonseca
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