1mais1.


um mais um rápido será.

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    Thursday, September 04, 2008
    já que você estava sempre lá.

     É claro que já tinham mudado, mas a distância do tempo entre um ponto e outro não é facilmente calculável. Mais de dez anos? Talvez. Porém não muito mais que isso, pensava enquanto entrava no metrô.  Guiga agora era "estagiário de escritor", como gostava de chamar. Na verdade, marcava encontros, entrevistas, viagens e lia em primeira mão alguns trabalhos de um grande escritor de hoje em dia. Não lhe entediava o trabalho. Na verdade, na altura dos seus trinta e cinco anos, achava bom este ofício. Ficava por ficar perto de pessoas interessantes.
     Na altura da estação de Botafogo levantou-se para sair. Olhou em volta e percebeu o mesmo metrô de sempre. Há uns quinze anos descia na mesma estação, seja na volta de algum digestivo cultural no centro da cidade, seja voltando do maracanã. Lembrou do Flamengo, clube de coração e que sempre lhe arrancava um nó na garganta. Tropeçou ali, naquele vão entre o metrô e o cimento da estação. Olhou pra frente, sorriu para uma jovem moça e sentiu vergonha. Correu, subiu a escada rolante de dois em dois, cortando espaço entre o tempo. Estava atrasado para o encontro; perto dali, no café do seu cinema preferido.
     Chegou à superfície enquanto um ônibus rasgava a Voluntários da Pátria, buzinando como se fosse pra ontem. Fechou os olhos, não gostava de barulho. Foi correndo, quase pulando de dois em dois e chegou na porta do cinema. Entrou e agradeceu a Deus pelo ar condicionado.
     Lá, sentada numa mesa um pouco ao fundo, estava Lúcia. Amiga que viveu no exterior durante um tempo. Era difícil saber quanto, pois quando foi já tinha sumido de sua vida. Ela havia namorado um grande amigo seu, Lucas. Lucas também sumiu. Mas foi porque quis. 
     Olhou pra ela, sorriu, tímidos pelo encontro, saudosos dos abraços. Sentou e pediu um café. 
     - Também quer?
     - Já tomei dois. Como sempre atrasado, Guiga...
     - O metrô. Ele deu aquela parada, sabe? Então...
     Ela não sabia. E se algum dia soube, já tinha esquecido. Morava agora em Belo Horizonte e nunca usava o metrô por lá. O Rio tinha ficado para trás e hoje se resumia a ser um cartão postal para as suas lembranças.
     - E aí, o que conta de novo? Fiquei sabendo que você continua sendo assessor daquele escritor... qual o nome mesmo?
     - Sim, sim. Continuo. Mas tem mais um agora também.
     - É? Você gosta?
     - Parece estágio. 
     Ela riu. Ele procurou desviar os olhos de seu rosto. Procurou algo em volta pra prestar atenção. Viu a garçonete chegar com o café. Já a conhecia. Gostava muito dela; a achava bonita, muito bonita. Ela sorriu enquanto lhe servia o expresso duplo mais caro da cidade. Lindo sorriso, pensou.
     Percebeu que era preciso dizer algo. Mas entre colocar açúcar em seu café e entrar na conversa era mais fácil pegar o sache da União. 
     - E além disso, Guiga? O que você anda fazendo? Um tempo enorme que a gente não se vê e você fica aí...
     - Continuo na mesma, Lú. Vejo televisão, alugo filmes, venho a esse mesmo cinema, escuto as músicas que eu gosto de escutar e de vez em quando tomo cerveja.
     - Jazz?
     - O quê?
     - Você continua gostando de jazz?
     - Sim, claro. Por que iria parar de gostar de jazz?
     - Não sei. Eu não escuto mais.
     - Você não escuta mais Coltrane?
     - Sim, claro que escuto. Mas ele não é jazz. É qualquer outra coisa além disso.
     Ela sorriu de novo. Ele procurou de novo outro ponto pra olhar e fugir do seu rosto. Cadê a garçonete? Não a via. Ficou assustado porque não tinha para onde olhar.
     - Vamos ali fora. Quero fumar um cigarro. 
     - Tem que pagar a conta, Guiga. 
     - Deixa aí, depois eu volto e pago. Conheço as pessoas.
     Levantou e viu a garçonete sair do banheiro. Disse calado em um sorriso que já voltava pra pagar. A garçonete entendeu. Sorriu. Belo sorriso.
     Lúcia foi ao seu lado. Caminharam em silêncio... De um ponto ao outro, tempo difícil de se calcular. Não demoraram mais de dois minutos, uns cinqüenta passos, talvez. Foi o tempo dele lembrar do Coltrane de novo. Como eles gostavam daquele disco, que escutavam em vinil. "Blue Train", de 57.
     Tirou o maço de cigarro. Procurou o isqueiro no bolso da calça, não achava.
     - Toma aqui, acende no meu.
     - Pensei que tinha parado.
     - Parei, voltei, parei. Comprei um maço quando cheguei aqui no Rio. Sei lá, sabe como é...
     Ele acendeu o cigarro dela primeiro. Estranhou. Fumava Free, agora.
     - Free?
     - É mais fraco, Guiga.
     - Engraçado você continuar fumando, Lu.
     - Por quê?
     - Sei lá. A gente sempre fumou junto e lembro que apostávamos quem iria parar primeiro. Sempre achei que iria ser você. 
     - Eu parei...
     - Mas voltou.
     - É. Mas agora fumo Free. 
     Riram juntos pela primeira vez em alguns anos... De um ponto ao outro. Tempo difícil de calcular. 
     Ele se espantou com a sinceridade de seu sorriso. Foi como se a muralha da China desmoronasse de uma vez. Sentiu-se inseguro. Com medo. Quis abraçá-la, beijar a sua testa da maneira que gostava de fazer. Sentir o seu cheiro. Cheiro único.
     - É impressionante você não escutar mais jazz. Sempre fomos parecidos, Lu.
     - Sim. Sempre fomos. Praticamente iguais.
     - Praticamente?
     - Sim. Só que eu sou mulher e você é homem.
     Ela disse aquilo olhando para o seu rosto. Pela primeira vez ele não sentiu vontade de procurar outra coisa pra olhar. Nem a bela garçonete. Nem outro ônibus que cortava a Voluntários... nada. Só pensava no que tinha escutado naquele instante, e daquele olhar... De um ponto ao outro. Tempo. Só pensava que ela ser mulher e ele ser homem...
     - Faz toda a diferença, Guiga. 
     Ela interrompeu o que ele iria pensar. Um tempo cortou todos os tempos que já existiram entre os dois. Foi como se estivessem olhando de novo, sem nenhum traço anterior de reconhecimento. Não dava pra calcular. Impossível. 
     Abaixou a cabeça e jogou o cigarro no chão. Esmagou com o all-star e quando subiu os olhos a beijou na testa. Cheiro bom. Beijo gostoso.
     Viu entre os cabelos dela que estava na hora da sessão. Mostrou pra ela e disse um "vamos?" meio na dúvida. Ela disse que claro, claro. Era uma retrospectiva do Alain Resnais, um dos diretores que gostava muito. Já devia estar no trailer do mais novo filme do diretor... "Medos privados em lugares públicos."


    Posted at 08:23 pm by GustavoFonseca

     

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